Ganhar mais nem sempre significa construir riqueza, alerta especialista

Planejamento financeiro e formação de patrimônio são apontados como fatores decisivos para garantir segurança e qualidade de vida na aposentadoria

Foto: Divulgação 


Receber um salário elevado ou aumentar significativamente a renda ao longo da carreira não garante, por si só, estabilidade financeira no futuro. Essa é a principal reflexão apresentada pela administradora e planejadora financeira Sabrina Herrschaft, especialista em planejamento patrimonial e previdência privada, que alerta para uma realidade cada vez mais comum entre profissionais de alta renda: o crescimento dos ganhos nem sempre é acompanhado pela construção de patrimônio.

Com mais de duas décadas de atuação no mercado financeiro, especialmente no atendimento a clientes de alta renda, Sabrina observa que médicos, empresários, executivos e profissionais liberais frequentemente chegam à aposentadoria sem reservas suficientes para manter o padrão de vida conquistado durante a carreira.

Segundo a especialista, a diferença entre renda e patrimônio é um dos conceitos mais importantes da educação financeira. Enquanto a renda representa o dinheiro que entra mensalmente, o patrimônio corresponde ao conjunto de recursos acumulados ao longo do tempo e capazes de oferecer segurança financeira.

Na prática, o aumento dos rendimentos costuma vir acompanhado da elevação do padrão de consumo. Imóveis maiores, veículos mais sofisticados, viagens frequentes e novos compromissos financeiros acabam absorvendo grande parte da renda adicional, reduzindo a capacidade de investir e formar reservas para o futuro.

Para Sabrina Herrschaft, o problema não está no consumo, mas na ausência de equilíbrio entre os gastos do presente e a construção da segurança financeira de longo prazo.

Essa preocupação também aparece em estudos recentes. De acordo com a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, realizada pela ANBIMA em parceria com o Datafolha, apenas 36% dos brasileiros investem em produtos financeiros, enquanto 31% da população não possui qualquer reserva para imprevistos. Entre aqueles que contam com alguma reserva, quase metade afirma que o recurso seria suficiente para menos de seis meses.

Na avaliação da especialista, esses dados mostram que muitas famílias apresentam patrimônio aparente, mas pouca liquidez. Em outros casos, há concentração excessiva em imóveis, investimentos pouco diversificados ou ausência de uma estratégia consistente de previdência e sucessão patrimonial.

A construção de riqueza, segundo Sabrina, depende de planejamento contínuo. Entre os principais pilares estão o controle do fluxo de caixa, a criação de uma reserva de emergência, a diversificação dos investimentos, a revisão periódica da carteira financeira e a definição de objetivos claros para o longo prazo.

O envelhecimento da população brasileira torna essa discussão ainda mais relevante. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos, enquanto uma pessoa que alcança os 60 anos pode viver, em média, mais de duas décadas. Esse cenário amplia a necessidade de formar patrimônio capaz de sustentar um período de aposentadoria cada vez mais longo.

Uma pesquisa da Serasa Experian, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box, reforça essa preocupação ao revelar que 64% dos aposentados consideram insuficiente a renda recebida para manter o padrão de vida, enquanto grande parte afirma ter iniciado o planejamento financeiro apenas nos últimos anos antes da aposentadoria.

Além da organização patrimonial, Sabrina destaca que a educação financeira desempenha papel decisivo na construção desse processo. Segundo ela, compreender conceitos relacionados a investimentos, previdência e gestão financeira permite decisões mais conscientes e reduz a dependência exclusiva da renda do trabalho.

Ao final, a especialista resume que patrimônio não deve ser confundido com fortuna. Para ela, riqueza é a capacidade de preservar parte da renda, investir de forma estratégica e construir uma base financeira que garanta autonomia, tranquilidade e segurança diante dos desafios da vida.

REDAÇÃO

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