Presidente da Associação Pagos afirma que agentes inteligentes devem mudar a relação entre consumidores, bancos e serviços financeiros
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| Foto: Divulgação |
A inteligência artificial avança rapidamente sobre diferentes setores da economia e já começa a redefinir a forma como consumidores se relacionam com bancos, meios de pagamento e serviços financeiros. O que antes era utilizado como ferramenta de apoio passa a ocupar uma posição estratégica na tomada de decisões, abrindo caminho para um novo modelo de interação entre clientes e instituições.
Esse cenário é analisado por Linconl Rocha, especialista em inovação financeira, meios de pagamento e presidente da Associação Brasileira do Ecossistema de Pagamentos (Pagos). Em seu primeiro livro, o executivo apresenta o conceito M.AI.Bundling (My AI Bundling), que propõe uma mudança profunda na maneira como os consumidores contratam produtos financeiros.
Segundo o especialista, a inteligência artificial deixará de atuar apenas como assistente para se tornar uma representante direta dos interesses do cliente, negociando automaticamente com bancos e instituições financeiras em busca das melhores condições disponíveis no mercado.
"O poder atravessou o balcão. Pela primeira vez na história, quem monta o pacote financeiro deixa de ser uma instituição e passa a ser o próprio consumidor, por meio de um agente de Inteligência Artificial que trabalha exclusivamente em seu favor", afirma Linconl Rocha.
Na avaliação do executivo, o setor financeiro passou por diferentes fases ao longo das últimas décadas. Primeiro, predominava o chamado bundling, quando os bancos concentravam todos os serviços em uma única instituição. Em seguida surgiu o unbundling, impulsionado pelas fintechs especializadas, que fragmentaram os serviços financeiros. Depois vieram os superaplicativos, consolidando uma fase conhecida como rebundling.
Agora, segundo Rocha, o mercado entra em uma nova etapa.
"O M.AI.Bundling inaugura uma mudança estrutural. O consumidor não precisará mais abrir aplicativos bancários, comparar produtos ou pesquisar condições. Sua única interface será a Inteligência Artificial, responsável por negociar, pesquisar e selecionar automaticamente as melhores opções disponíveis."
O especialista destaca que boa parte da infraestrutura necessária para essa transformação já está disponível no Brasil. A implementação do Open Finance, coordenada pelo Banco Central, criou um ambiente de compartilhamento seguro de dados entre instituições financeiras, permitindo maior integração entre diferentes serviços e facilitando o desenvolvimento de soluções baseadas em inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, o mercado brasileiro de pagamentos segue em expansão. A Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) projeta que o setor ultrapasse a marca de R$ 5 trilhões em transações durante 2026, impulsionado pela digitalização dos serviços e pela popularização de novas formas de pagamento.
Os hábitos dos consumidores também acompanham essa evolução. O pagamento por aproximação, por exemplo, tornou-se uma das modalidades mais utilizadas pelos brasileiros, evidenciando a rápida adaptação às tecnologias digitais e abrindo espaço para soluções cada vez mais automatizadas.
Para Linconl Rocha, esse movimento demonstra que o mercado está preparado para uma nova fase da transformação digital.
"A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma aposta tecnológica para se tornar infraestrutura. A discussão já não é mais se ela fará parte das empresas, mas quando ela passará a ser exigida pelos próprios consumidores."
O especialista observa, no entanto, que a expansão desses sistemas também traz novos desafios relacionados à transparência, à segurança e à governança dos algoritmos responsáveis pelas decisões financeiras.
"Se a Inteligência Artificial passa a decidir em nome do cliente, surge uma pergunta inevitável: ela trabalha para o consumidor ou para quem a desenvolveu? O diferencial competitivo será provar que esses sistemas atuam de forma transparente e realmente representam os interesses das pessoas."
Segundo ele, esse debate envolve bancos, fintechs, empresas de tecnologia, operadoras de pagamento e órgãos reguladores, que precisarão estabelecer mecanismos capazes de garantir confiança e segurança no uso dessas ferramentas.
Na visão do presidente da Pagos, a indústria financeira caminha para um cenário em que a concorrência deixará de acontecer diretamente pela atenção do consumidor e passará a disputar a preferência dos agentes inteligentes responsáveis por intermediar as decisões financeiras.
"O banco do futuro talvez seja aquele que o cliente nunca verá. As instituições continuarão existindo, mas atuarão nos bastidores, competindo silenciosamente para serem escolhidas por uma Inteligência Artificial que representa exclusivamente os interesses do consumidor."
