“Volúvel", do Coletivo Corpo de Macumba, estreia em São Paulo e transforma lembranças familiares em reflexão sobre ancestralidade, migração e resistência
A memória de milhares de mulheres anônimas do Norte e Nordeste brasileiro ganha voz nos palcos a partir do próximo dia 24 de julho, com a estreia de "Volúvel", novo espetáculo do Coletivo Corpo de Macumba, no Sesc Ipiranga, em São Paulo. Inspirada na história da avó da atriz Jota Silva, a montagem propõe uma reflexão sobre ancestralidade, apagamento histórico e as trajetórias de mulheres caboclas que ajudaram a construir o Brasil, mas raramente aparecem nos registros oficiais.
Com direção de Venâncio Cruz, o espetáculo parte de um gesto íntimo para alcançar uma dimensão coletiva. Em cena, uma neta encontra o diário deixado pela avó e, ao revisitar lembranças, fotografias invisíveis e histórias transmitidas oralmente, descobre que sua própria origem está ligada a uma memória compartilhada por inúmeras famílias brasileiras.
A personagem reconstrói a trajetória de Cabocla Conceição Maria, migrante maranhense que passou pela região de Serra Pelada e percorreu diferentes estados do país. A partir dessa narrativa, "Volúvel" apresenta histórias marcadas por deslocamentos, trabalho, violência, resistência e permanência, transformando experiências familiares em um retrato de tantas outras mulheres invisibilizadas ao longo da história.
Segundo Jota Silva, a criação nasceu da lembrança de um ritual de cura realizado por sua avó durante a infância. Esse momento afetivo tornou-se o ponto de partida para um espetáculo em que passado e presente deixam de seguir uma ordem cronológica e passam a coexistir, revelando como as memórias individuais carregam marcas coletivas.
Mais do que contar uma biografia, a montagem busca investigar aquilo que permaneceu fora dos livros e documentos oficiais. O diário da avó torna-se um documento afetivo capaz de questionar quais histórias sobreviveram apesar do silêncio imposto às populações caboclas.
Para o diretor Venâncio Cruz, o projeto também dialoga com sua própria história. Maranhense, ele conta que seu avô viveu em Serra Pelada no mesmo período em que os familiares de Jota passaram pela região, fazendo com que duas memórias particulares se encontrassem e se transformassem em uma narrativa coletiva sobre identidade e pertencimento.
Fundado em 2023, o Coletivo Corpo de Macumba reúne artistas negros, indígenas, nortistas, nordestinos e periféricos em pesquisas voltadas à contra-colonialidade nas artes da cena. O grupo utiliza teatro, dança, performance e escrita para construir novas narrativas sobre o Brasil, confrontando perspectivas históricas que contribuíram para o apagamento de diferentes povos e culturas.
Essa proposta está presente em toda a construção de "Volúvel". O espetáculo transforma a memória em um gesto de continuidade, mostrando que lembrar não significa apenas revisitar o passado, mas também reconhecer existências que permaneceram vivas mesmo diante do esquecimento institucional.
Ao levar ao palco histórias que durante décadas permaneceram restritas ao ambiente familiar, a montagem reafirma o teatro como espaço de preservação da memória e convida o público a refletir sobre quem são as pessoas que ajudaram a construir o país, mas ainda seguem ausentes das narrativas oficiais.
Serviço
Sessões:
Sextas-feiras, às 21h
Sábados e domingos, às 18h30
Local: Auditório do Sesc Ipiranga – São Paulo (SP)
Ingressos:
R$ 15 (Credencial Plena)
R$ 25 (meia-entrada)
R$ 50 (inteira)
